“Em Portugal um livro de fotografia não vende e um bom livro é um livro que vende”. A frase ouvida há quase uma década durante a reunião de apresentação de um projecto a uma editora, ficou-me na memória. Claro que se trata do ponto de vista de alguém que tem de gerir as contas de uma empresa, pagar ordenados e não se deixar levar pelos líricos de serviço. Orgulhosamente lírico e não concordando com a premissa, segui o meu caminho até encontrar conjuntura mais favorável, como uma sucessão de problemas de saúde, a incontornável pandemia, a empresa à beira da falência e um plano b arruinado. Se perante este cenário, eu não visse um sinal inequívoco para pegar em sonhos dispendiosos e condenados ao fracasso financeiro por quem sabe do assunto, tinha que estar muito distraído.
Voltando um pouco atrás, corria o Verão de 2020 quando um amigo me ligou para falar da sua nova actividade numa pequena editora vocacionada para edições de autor. Fiquei interessado no modelo de negócio - uma margem simpática para o autor e muita liberdade criativa - mas, há sempre um mas, era preciso arranjar forma de financiar a produção do livro. Deixei a ideia marinar por uns tempos, até que um neurónio mais saído da caixa apontou para a estrada do “crowdfunding”. Como funciona? Será que resulta? Casos de sucesso, alguém sabe? Perguntei eu por aí e as respostas chegaram a bom ritmo e com valiosos conselhos associados. Foi assim que cheguei à plataforma PPL, nascida e criada em Portugal para gerir projectos de crowdfunding e uma referência de eficiência e profissionalismo, que se revelou a companhia certa para continuar a avançar com o meu momento de loucura.
Com o plano de negócios devidamente rabiscado em pedaços de papel e reunida a equipa disposta a embarcar num avião sem gasolina, descobri que precisava de uma pequena fortuna (considerando o cenário já descrito anteriormente). Entre família, amigos, conhecidos e muitos ilustres desconhecidos que se dispuseram a comprar um livro antes de existir, ultrapassei rapidamente o valor necessário e de uns ousados (para o mercado português) 200 livros inicialmente previstos, acabei por chegar aos 550 livros! O sonho comanda a vida e tal, mas como se sabe, há pedras no caminho. Neste caso um calhau de dimensões madeirenses aterrou-me no browser: o valor angariado em crowdfunding e transferido pela PPL para a minha conta bancária e de seguida para a da editora, andava perdido no ciberespaço. Como assim? Assim: saiu da minha conta mas nada de chegar à da editora. Foram alguns dias neste limbo impróprio mesmo para vegans imortais, até que por obra e graça de Neptuno (só pode), o valor transferido regressou à minha conta. Como a relação com a editora já acumulava mais problemas do que um pulôver low cost exibe borbotos, decidi que era o momento certo para alterar a rota: estava na hora de seguir sozinho! Uma decisão corajosa mas que me deixava com dois pequenos problemas em mãos: não tinha editora nem gráfica onde imprimir o livro. Parecendo complicado, foi apenas complexo: entrei em modo edição de autor e a partir daqui “só” precisava de conseguir uma boa gráfica que estivesse disposta a imprimir os tais 550 livros em uma semana e meia em pleno mês de Dezembro. Isto é mais ou menos o mesmo que decidir comprar um peluche XL numa grande superfície no dia 23 de Dezembro à noite. Been there, done that, terreno familiar portanto.
Diz-se que se tivermos um amigo advogado e outro médico estamos safos na vida. Acrescente-se um designer e aí sim estamos seguros. Meia dúzia de telefonemas para amigos dedicados a salvar vidas em cima da hora (não estou a falar de médicos), outras tantas sugestões e emails e em 24 horas tinha a gráfica Jorge Fernandes pronta para arrancar a tempo de todos os apoiantes do projecto receberem os seus livros antes do Natal. Acrescente-se uns percalços de última hora, uma directa a acompanhar a impressão do livro, uma semana de loucura a tratar de envios via correio nacional, internacional e em mãos e o sonho concretizou-se sem demasiados ansiolíticos. Mas acabou aqui? Claro que não.
Passados uns meses, com o stock de livros quase a zeros, começo a repensar: tudo começou com um livro que não se ia vender e foi afinal um sucesso, então porque não prosseguir caminho com uma segunda edição? E que melhor parceiro poderia eu encontrar, do que a Câmara Municipal da Nazaré e o seu Presidente Walter Chicharro, fã incondicional do surf de ondas grandes e conhecedor como ninguém do potencial económico do fenómeno natural do Canhão da Nazaré? Não podia e nem sequer procurei. A ideia de associar a marca “Nazaré” a um livro que se enquadra perfeitamente na estratégia do município de promoção do fenómeno de ondas grandes a nível nacional e internacional, foi recebida com entusiasmo e a parceria avançou, culminando com o regresso à gráfica - e malabarismos de última hora associados - para a produção de mais 700 exemplares!
O livro “Nazaré” está agora disponível nas seguintes lojas físicas e online:
Lojas Surfers Lab Peniche e Sagres
Lojas Quiksilver Boardriders Ericeira e Carcavelos
PS: Um ano e meio passado do início desta aventura, fica mais um sentido obrigado a todos os que apoiaram este sonho possibilitando a sua concretização e abrindo caminho para outros.


























